A urgência de ser distante
Não me identifico propriamente com o lugar onde nasci. Não me vejo nos valores dos meus pais, nem integrada no meu grupo de amigos. Aos 18 procuro cumprir aquele sonho infante de ir estudar para longe, ser independente, viver na privacidade da minha própria mente e espírito.
Estar distante infere a grandeza física de proximidade com o mundo empírico, contudo, a distância não é somente física.
Ser distante interfere com o meu sentimento de pertença, a minha intimidade e conexão com o mundo e sociedade.
Para mim, ser distante não necessariamente implica estar perdida ou que me sinta solitária. Muitas vezes, estar distante é uma escolha minha sobre o qual direciono a minha atenção, ironicamente, por vezes surge a escolha involuntária de procurar fugir, um similar: "Não quero mais aqui estar".
Existe uma coletânea de eventos em que me alegro por não me identificar com: Falar mal da vida alheia, festas grandes, superficialidades, fanatismos...
A urgência de estar distante surge pela necessidade de me afastar daquilo que não me é conveniente e/ou satisfatório. Sentimos saudades de uma solitude que é agora preenchida com estímulos milimetricamente calculados para nos prender. Os momentos de silêncio que uma vez me cativaram à reflexão, são agora escassos, confiante de que quase nulos. Músicas, vídeos, sons da realidade... todos me ocupam o silêncio livre.
A distância nem sempre é racional, nem sempre é bonita, nem sempre é saúdável. Ser distante liberta-nos do desapego mas infere diretamente nos nossos vínculos íntimos, por vezes surge esta ideia paradoxal no conceito reciprocidade.
"Intimidade- qualidade do que é íntimo, definindo-se como uma relação estreita, familiaridade, vida privada ou ambiente reservado e acolhedor. Envolve a partilha de sentimentos, pensamentos e
vulnerabilidades, criando um espaço seguro. Deriva do Latim intimus (o mais interior)."-Dicionário Léxico
Vulnerabilidades? Aqui não há disso.
Onde ser reflete a distância?
Procuro afastar-me de conversas difíceis, por vezes essenciais. A distância entre as minhas cordas vocais e mente que as ordenam falar é, num possível agora, enorme. As minhas mãos tremem ao escreves estas palavras vulneráveis. A tendência evitativa e involuntária surge da emoção: o constrangimento, ânsia de ser inconveniente.
Acho hipócrita de mim refletir nas minhas atitudes as consequências e repreensões, o meu incómodo direto do que não falei, exatamente como faria caso me tivesse expressado mil vezes.
" Peso-me por saber o que sinto, mas não como o expressar. Peso-me por pesar em mim aquilo que não expresso. Pesa-me que isso me torne distante."
E isto faz de mim distante

